Uma criança que não conseguiu aguentar o seu sofrimento. É duro demais ser-se reduzido pelos colegas a um” saco de porrada” onde a crueldade de alguns jovens é apoiada e enaltecida pelos seus acólitos. Sempre existiu aquilo a que chamam hoje “bullying”. Mas, os valores morais desta nova geração, irresponsabilizados, inimputabilizados, favorecem o surgimento destes liderzitos rascas que impõem a sua liderança pela força bruta. O grave é serem rodeados de pseudo líderes que anseiam chegar ao patamar dos seus líderes.
Não gostaria de comparar gerações mas sou obrigado a fazê-lo. Também eu fui vítima, muitos o foram. Mas, não havia bandozecos. Havia medida de forças. O mais forte era admirado mas, também, ostracizado se ultrapassava determinados limites. Havia combates de rua, cenas de pugilato, mas, havia alguma honra no combate. Cresci num ambiente de escola só de rapazes (ainda não havia escolas mistas) onde o ambiente era mais violento por natureza. Mas, a escola tinha vigilantes e os professores, nesse tempo, não se ensaiavam nada em dar um bom par de estalos se dois alunos fossem apanhados “à tareia”. E, no máximo, umas nódoas negras eram o saldo destas refregas. Por outro lado, elas em si, desenvolviam o espírito de grupo e a posição de liderança no grupo. Éramos naturalmente obrigados a aprender a defendermo-nos. E, eu aprendi a dar o valor a quem é “achincalhado”e precisa do apoio de amigos. Hoje verifico que todos seguem o “herói” e se juntam para achincalhar o vencido. Faltam valores morais de ética e honra. Se hoje perguntar a um jovem o que isso quer dizer, ele desata-se a rir como se eu estivesse a dizer a maior baboseira deste mundo. E, esta imbecilidade irrita-me. Estamos a produzir uma geração de deficientes, no mínimo, mentais, gente sem escrúpulos, capaz de espezinhar o colega ou amigo só para sobressair. Não, já não basta mostrar que é o melhor ou mais forte. Têm de sentir que esmagaram o” inimigo”.
Enquanto jovem e adolescente aprendi a defender-me. Não a atacar mas, a defender-me. Enquanto pai, preocupei-me em transmitir essa afirmação aos meus filhos. Também eles, como a generalidade dos jovens, tiveram as suas refregas nos recintos escolares. E, tiveram de aprender a viver e a sobreviver. Apenas lhes transmiti que, se alguma vez soubesse que eles maltratavam alguém, ou ridicularizassem alguém gratuitamente , eu mesmo lhes faria o respectivo correctivo corporal. Nunca precisei de o fazer. Mas, havia que aprenderem a responder nas situações de confronto. E, aí, não se vira costas.
Aqui, talvez valha contar uma pequena história bem próxima de mim. O meu filho várias vezes se queixava que alguns lhe batiam. Eu disse-lhe: quando te baterem, bate-lhes. Se tu não provocaste ninguém e vêm provocar-te, tens o legítimo direito de te defenderes usando de todos os meios desde que não ajas traiçoeiramente. Um homem confronta-se frente a frente, olhos nos olhos. E, no dia em que tu conheceres o poder da tua força, nunca mais serás o mesmo.
Um dia chegou-me a casa radiante. Tinha andado “à tareia” com um colega. Mas... “ oh pai, eu enfie-lhe um murro que ele até caiu logo no chão...”. Sim, e depois, o que aconteceu? - Perguntei-lhe.
Oh pai, ele agora é meu amigo!!!
Pois, é assim que se conquistam as nossas posições. Ripostaste, mostraste a tua determinação. Agora, acabou, não há ressentimentos. Cada um ocupa o seu lugar.
E, os anos passaram. Continuava a ser um bonacheirão, corpulento e, desconhecedor da sua força. Um dia foi assaltado a caminho da escola. Tomou uma raiva tal que eu próprio me assustei com as possíveis consequências. Tens de ter calma e usar a cabeça, fria, nesses momentos, disse-lhe. Sempre em defesa mas pronto para responder.
Como na zona escolar era quase “normal” serem assaltados sem que alguma vez a polícia actuasse, comecei a andar com o coração nas mãos.
Um dia chegou-me a casa e disse-me:” Pai, ia sendo assaltado. Mas espetei um pontapé no gajo que o ia matando. Num vi um gajo levantar-se do chão e fugir tão depressa...” mas, mostrava alguma pena por ter batido no dito indivíduo.
Abençoado pontapé, filho. Disse-lhe. Provocaste-o? Não. Defendeste-te? Sim! Magoaste-o? Talvez não, se ele se pôs a andar. Uma coisa é certa. Esse vai pensar duas vezes na próxima vez que quiser fazer algo semelhante.
Este jovem, prestou ontem, dia 3 de Março, em Inglaterra, provas para atribuição de grau em Karaté. Cinto branco em Inglaterra, porque não tinham equivalência com o grau que possuía em Portugal, em função das suas aptidões demonstradas ao longo dos treinos, foi proposto, pelo seu Mestre, a sua passagem a cinto Verde, uns graus bem acima do cinto branco de iniciado que ele possuía lá. Telefonou, depois de concluído o exame, radiante, à mãe, para contar que, por decisão unânime do júri, avaliada a sua postura e a sua competitividade, para além da técnica demonstrada, lhe seria atribuído, e como caso único até ao momento, o cinto Roxo. Esta decisão foi recebida com aplausos de todos os colegas e amigos. Ele próprio não percebeu bem ao início, apenas percebeu que tinha passado. Depois, foi-lhe explicado que não lhe podiam entregar o cinto nesse momento porque... tinham adquirido um Verde para ele e não previam que ele alcançasse o Roxo.
E, toda esta história, verídica, para mostrar que, o papel de um pai é fundamental para que cenas como a do título se não voltem a repetir. Há que se punir aqueles que gratuitamente usam e abusam da violência mas há que, sobretudo, conseguir preparar física e psicologicamente, um indivíduo para se saber defender.
Talvez não seja à toa que, uma boa preparação minha para entender e conseguir ultrapassar estes comportamentos, se deva a, enquanto militar, nos tempos do serviço militar obrigatório, ter sido instrutor de recrutas em unidades operacionais. E, ainda hoje recordo e conto aos meus filhos que me sentia orgulhoso de, sem nunca faltar ao respeito a ninguém, sem menosprezar os fracos e cerceando um pouco a fúria dos mais fortes, recebia crianças quase imberbes e, ao fim de três meses, eram homens responsáveis, solidários, disciplinados e prontos a seguir-me para onde eu fosse. Felizmente nunca houve guerra e espero que nunca venha a haver. Mas, lembro-me que, estavam treinados para se defenderem uns aos outros, para atacarem sob determinadas ordens e que cada grupo era uma máquina própria que agia em grupo. Condicionei-os? Sim!
Mas, muitos deles demonstraram-me que aprenderam exactamente o mesmo que consegui transmitir ao meu filho: autoconfiança, solidariedade e consideração pelo próximo, capacidades de se auto afirmarem e espírito de grupo.
Não queria comparar uma escola com uma guerra ou um campo de batalha mas, tenho que ter em conta que, a sociedade está cada vez mais selvagem e que, afinal, essa analogia até não está tão longe da verdade quanto se pretenderia.